Ludopatia tem tratamento: como ele funciona na prática
Dr. Bruno Rocha · Médico psiquiatra · CRM-TO 7252
Transtorno do jogo é tratável. Isso precisa ser dito antes de tudo, porque muita gente chega achando que a única coisa disponível é tentar com mais vontade na próxima segunda.
Tratável não é o mesmo que cura garantida, e eu não vou te prometer isso. É um quadro que exige acompanhamento e tem recaída no percurso, como os outros quadros de dependência. O que existe é caminho conhecido, com coisas que funcionam melhor que outras.
A avaliação vem primeiro
Antes de qualquer conduta, é preciso entender o que está acontecendo. Isso inclui a história do jogo (quando começou, o que mudou, qual formato prende mais), o tamanho real do prejuízo, e principalmente o que mais está junto.
Essa última parte muda o tratamento inteiro, porque ludopatia raramente vem sozinha: depressão, ansiedade, uso de álcool e traços de impulsividade aparecem com frequência, e tratar só a aposta ignorando o resto costuma dar resultado curto.
É também na avaliação que se investiga risco. Isso não é formalidade, é a parte mais importante da primeira consulta.
Uma conversa dessas não cabe em quinze minutos. É por isso que a primeira avaliação aqui tem até 1h30.
Psicoterapia
É o centro do tratamento, e a abordagem com mais evidência acumulada para transtorno do jogo é a terapia cognitivo comportamental.
Na prática, ela trabalha três frentes: identificar as situações que disparam a vontade (horário, estado emocional, dia de jogo, estar sozinho, ter recebido dinheiro), corrigir as distorções que sustentam a aposta (a ilusão de controle, a sensação de que uma sequência ruim está prestes a virar) e construir resposta para a fissura quando ela aparece, em vez de contar com a sorte no momento.
Medicação, quando entra
Não existe hoje um remédio aprovado especificamente para transtorno do jogo, e desconfie de quem disser o contrário.
A medicação entra por outro caminho, e entra com frequência: tratando o que vem junto. Depressão tratada muda a capacidade de sustentar qualquer plano. Ansiedade tratada reduz um dos gatilhos mais comuns. Quando há impulsividade importante ou uso de álcool associado, existem opções estudadas que podem ser consideradas caso a caso.
A decisão é individual, com critério explicado e revisada ao longo do caminho. Nenhuma receita sai de uma consulta como fórmula pronta.
As barreiras práticas
Essa parte é pouco glamourosa e faz muita diferença nas primeiras semanas, quando a fissura ainda está forte e a capacidade de resistir ainda está baixa.
Autoexclusão nas plataformas. Bloqueio de aplicativos e de sites. Cartão fora do alcance, limite reduzido. Outra pessoa administrando o dinheiro por um período combinado, com data para revisar. Notificação de esporte desligada.
Nada disso trata o quadro sozinho. Tudo isso compra tempo para o tratamento agir.
Recaída não é fracasso
Em quadros de dependência, recaída faz parte do percurso mais vezes do que não. Ela não apaga o que já foi construído e não significa que o tratamento não serve.
O que muda o resultado é o que se faz depois dela: voltar rápido, entender o que disparou, ajustar. O pior desfecho não é a recaída, é o sumiço que vem depois dela, por vergonha. Se isso acontecer com você, volte. É esperado, e tem para onde voltar.
Como começar
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Quero agendar uma avaliaçãoEste conteúdo tem caráter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento intenso ou com pensamentos de morte, ligue 188 (CVV, gratuito e 24 horas) ou procure a emergência mais próxima.