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Dívida e vergonha

Dívida, vergonha e o ciclo de esconder

Dr. Bruno Rocha · Médico psiquiatra · CRM-TO 7252

Homem sentado sozinho em uma varanda no fim do dia

Quando a história vem à tona, a família costuma se fixar em uma parte: a mentira. Como é que ele olhou na minha cara e mentiu.

Entender a ordem dos fatos ajuda. A mentira quase nunca é o começo. Ela é o que aparece depois, quando o buraco já existe e a vergonha de mostrar o buraco é maior que o medo de ser descoberto.

Como o ciclo se fecha

Ele costuma girar assim. Perde um valor que dói. Sente vergonha. A vergonha pede reparação rápida, porque a ideia de contar é insuportável. A reparação rápida disponível é apostar de novo. Apostar de novo aumenta o buraco. O buraco aumentado deixa a vergonha maior. E a vergonha maior pede segredo maior.

Repare que cada volta do ciclo é uma tentativa sincera de resolver. É isso que torna tão difícil sair sozinho: a saída aparente é a própria causa.

A caça ao prejuízo

Voltar para recuperar o que se perdeu é um dos comportamentos mais característicos do transtorno do jogo, e um dos mais perigosos, porque muda o jeito de apostar. A aposta deixa de ser por diversão e passa a ser por necessidade. Os valores sobem, o critério cai, e o tempo entre uma e outra encurta.

Quem está nessa fase raramente aposta esperando lucro. Aposta esperando voltar ao ponto de partida, para que ninguém precise saber de nada.

Por que a mentira aparece

Não por frieza. Por cálculo de sofrimento: contar agora significa perder confiança, decepcionar, talvez perder a relação. Esconder mais um pouco significa manter tudo de pé por mais um dia, com a esperança de tapar o buraco antes.

Isso não torna a mentira menos destrutiva para quem a recebe, e não tira a responsabilidade de ninguém. Mas explica por que ela se repete mesmo em pessoas que, fora disso, são honestas.

Quando a vergonha vira risco

Essa parte precisa ser dita com clareza. Dívida grande, somada a vergonha e a segredo, é uma combinação de risco. Não é raro que a primeira vez que alguém fala do assunto em voz alta seja também a primeira vez que diz que pensou em sumir.

Se esse pensamento apareceu, com você ou com alguém próximo, não espere consulta. Ligue 188, o CVV, que é gratuito e atende 24 horas, ou procure a emergência mais próxima. Essa conversa é urgente e existe gente treinada para tê-la agora.

Por onde o ciclo se rompe

Ele se rompe em dois pontos ao mesmo tempo, e por isso tratamento e organização financeira costumam andar juntos.

De um lado, tirar o segredo de circulação: contar para pelo menos uma pessoa, colocar o tamanho real da dívida no papel, parar de administrar sozinho. O alívio que vem de dizer o número em voz alta costuma ser maior do que qualquer um espera.

Do outro, reduzir o acesso: separar contas, tirar cartão da mão, usar as ferramentas de autoexclusão, combinar que outra pessoa cuida do dinheiro por um período definido. Isso não é humilhação, é curativo. Curativo se tira depois.

E tratar o que está por baixo, que quase sempre inclui ansiedade ou depressão. O tratamento na prática está descrito aqui.

Se você se reconheceu neste artigo, o próximo passo é uma conversa.

Consultas de até 1h30, presenciais em Araguaína ou online pra todo o Brasil. Atende planos de saúde.

Quero agendar uma avaliação

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento intenso ou com pensamentos de morte, ligue 188 (CVV, gratuito e 24 horas) ou procure a emergência mais próxima.